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Quarta-feira, 19 de Maio de 2010
A OUTRA - AMAMOS SEMPRE NO QUE TEMOS

Este poema hoje não me abandona... Porque será? Talvez porque os poetas conseguem sempre encontrar um buraco mais fundo que o fundo da alma... Onde já não há nada para achar!

Porque acho que há ao meu redor quem se sinta assim... Porque acho que quando amamos, abraçamos, beijamos, damos... Não o devemos fazer por obrigação e sim por devoção!

Nunca mais será a mesma coisa quando soubermos que alguém não quer nem deseja o que tem. Que se conforma... Que se conforta em pensar que faz a coisa certa. Isso é justamente fazer a coisa errada e, há efectivamente erros que têm que ser corrigidos. Enquanto podem, os jovens devem evitar viver condenados por um momento que se eterniza.

Fala-se tanto na liberdade! Terá liberdade quem não dispõe de si plenamente? Quem na integridade dos seus sentidos e sentimentos só encontra desencontros do que quer para si? Será feliz alguém quem não tem o que ama, e em virtude de um mal entendido, de uma falha, tem que amar aquilo que tem?

Não há Homem que mereça este castigo. Não quero nem pensar o quanto deve ser horrível e aborrecido ter que adormecer e acordar todos os dias junto de um par que não se quer por par, de um igual que nos é tão desigual... Se é assim, quem se impõe ao outro um dia terá, invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, o que Fiódor Dostöievski sintetizou tão bem como "Crime e Castigo"...

Em dias como hoje não há sol arrebatador que aqueça t ão "funesta Primavera ", usando as palavras de José Carlos Ary dos Santos.

Mas melhor que eu, deixo nas mãos de outro alguém... Eterno...

 

 


AMAMOS sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, larg o os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
À Outra.

 

Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora e minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da Out ra.

 

Os remos já caíram na água,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfi m podem ter.
Quem abraço?
A Outra.

 

Bem sei, és bela, és quem desejei...
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
E poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.

 

Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?

 

Ah, talvez, mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nos recomeçar
Que talvez sejas
A Outra.

 

Mas não, nem onde essa paisagem
É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.

 

Ah, por ora, idos remo e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o teu ser.
Façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ter.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra.

 

 

Fernando Pessoa

sinto-me: Palavras para quê?
música: Elvis - Love Me Tender
publicado por Conventodaalma às 18:10
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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
E há segunda-feira...


 

Ou melhor, reformulando o título: e porque hoje é segunda feira... Um momento com Fernando Pessoa, heterónimo...


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa, "O Guardador de Rebanhos"

 

E de certa forma, quando é assim que sou, é assim que quero ser! Gosto de sentir o espanto de ver tudo como se fosse a primeira vez. Bem sei que tenho um privilégio em relação à maioria das pessoas... Por mais vezes que veja, gosto cada vez mais de ver! Há coisas que não se fizeram, efectivamente, "para serem pensadas"! Não me importo de já ter visto o que vejo; muito pelo contrário... Às vezes tenho a sensação que esse é mesmo o princípio do verbo amar!

 

Eu Veneno me confesso, não me importo que não hajam própriamente lugares novos para descobrir todos os dias, pois há tanto ainda para ver nos lugares "comuns", para os quais já olhei milhares de vezes! Há tanto ainda por desvendar... Tantas sensações para partilhar, que não me importo mesmo nada com a rotina que desconheço... Para mim tal coisa não existe. A propósito... Lembrei-me de um episódio que ouvi o relato, gravado, na primeira pessoa: Eça de Queirós uma vez disse para a filha mais nova ao vê-la no quarto:

-"Que tens?"

Ao que ela respondeu:

-"Olhe paizinho, estou aborrecida!"

E qual não foi o espanto de Eça... Que teve a oportunidade de lhe ensinar uma lição de vida:

-"Mas há tanta coisa para fazer. Por exemplo, até o abanar da folha de árvore que vês da janela do quarto ao vento, nunca é igual."

Se pensar-mos assim, apesar de quê, desde que haja vento a folha abane todos os dias... Nunca é a mesma coisa vê-la abanar, porque não acontece de forma igual. A folha em causa pode até, um dia, cair! A filha de Eça disse ainda que desde aí nunca mais se aborreceu! Acredito que sim... É muito mais simples ver o mundo desta perspectiva.

 

Gosto tanto de partilhar com todos vós estes pequenos sentimentos e privilégios da vida... E com isto tudo nem me dei conta, já misturei Eça e Pessoa, mas não tem mal nenhum, tenho cá para mim a certeza que nenhum dos dois se ofende com o génio e talento do outro!

 

sinto-me: Ouço a "alma do mundo"
música: Silêncio, há Pessoa para lêr!
publicado por Conventodaalma às 10:57
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008
120 Anos de Pessoa

 

Aos 13 dias do mês de Junho do ano da graça de deus de 1888 nascia em Lisboa, Fernando António Nogueira Pessoa; mais conhecido por Fernando Pessoa. Agora que não falamos de um estranho para ninguém, acrescento que falamos do homem que não sabia o que amanhã lhe trazia, e ainda bem... Se soubesse, estaria informado que estas seriam as suas últimas palavras escritas, em língua inglesa: "I know not what tomorrow will bring... "! O amanhã, essa longínqua paragem, trouxellhe o reconhecimento e o mérito de ser o mais traduzido e reconhecido dos autores portugueses.

Falo do homem dos heterónimos, a quem nem ele mesmo se bastava... Era preciso mais, era preciso desmultuplicar o génio em muitos génios, para que houvesse espaço para tanta capacidade criativa, para tanto génio condensado num só homem.

Deixou-nos uma sábia mensagem, mas acima de tudo deixou-nos parte de si, na imortalidade da sua obra. Quantos de nós nos poderemos gabar de ter feito algo semelhante?

Falar de Pessoa é falar de Ricardo Reis, de Álvaro de Campos e de Alberto caeiro. Talvez o mais rude e rústicos dos seus heterónimos fosse o mais feliz dos felizes, nas vidas literárias paralelas que Pessoa vivia. Que coisa mais simples poderia haver que um homem que génio que não necessitasse de nada daquilo que o próprio Pessoa precisava? Não urgia em nada, não precisa de nenhuma outra fonte que alimento que não a natureza. Que homem poderá ser mais feliz que aquele que diz e crê que  "Pensar é estar doente dos olhos", e que enche o corpo, a alma e os pulmões ao comtemplar o "glaubo pascigo"? Somos todos bastante infelizes ao pé dele... Mas qualquer das formas não seriamos felizes no lugar dele! Todos somos mais "Pessoa" que o próprio Alberto Caeiro, mas no entando, ele faz-nos tanto sentido, creio que traduz aquilo que de mais simples e mortal há em todos nós.

O lado oculto de Pessoa talvez seja transparente no seus poemas heteronimos que ele mesmo... Não deixa de ser interessante!

Não vou escrever, hoje, tudo o que me vem à cabeça sobre Pessoa, vou guardar, para ir colocando aos pouquinhos... Para que possamos, ao longo deste mês, ir partilhando este "momento"... 120 anos depois.

Gostaría de ter o génio de escolher aquele pedaço da obra de Pessoa que ele próprio colocaria, no dia de hoje,m 120 anos depois, aqui, para todos vós, mas reconheço-me incapaz de tal... Limito-me a procurar por entre todas as "linhas" que tenho memorizadas, uma que hoje, sem que sequer saiba porquê, me faça algum sentido especial...

 

Por falar em fazer sentido, este poema de Pessoa que aqui vou deixar hoje tem dedicatória especial: aos companheiros de jornada do Blog Arcadia que podem encontrar aqui nas hiperligações, à direita...

 

 

 

Os Colombos

 

Outros haverão de ter

O que houvermos de perder.

Outros poderão achar

O que, no nosso encontrar,

Foi achado, ou não achado,

Segundo o destino dado.

 

Mas o que a eles não toca

É a magia que evoca

O longe e faz dele história,

E por isso a sua glória

É justa auréola dada

Por uma luz emprestada.

 

in, PESSOA; FERNANDO, SEGUNDA PARTE - MAR PORTUGUÊS, A MENSAGEM

 

sinto-me: ...Pessoa
música: Silêncio do poema
publicado por Conventodaalma às 13:08
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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
120 anos

 

 

A imagem do post anterior não foi nada inocente... Nada mesmo... Voltamos depois ao tema... para já fica aqui Fernando Pessoa "no apoio" a Portugal e à selecção Nacional.

sinto-me: Portugal num poema
música: Um poema de Pessoa musicado e cantado...
publicado por Conventodaalma às 02:46
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